Tríduo Pascal · Ano A
O túmulo está vazio, mas o Senhor está vivo
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Vigília Pascal · noite do Sábado Santo
4 de abril de 2026
Caros irmãos e irmãs, chegamos a este dia para celebrar a alegria da ressurreição de Jesus, depois de uma preparação que se iniciou na Quarta-feira de Cinzas. Percorremos um caminho de esperança, voltando nossos corações para o Senhor com confiança e depositando n’Ele as nossas vidas. Chegando ao Tríduo Pascal, mergulhamos na celebração dos mistérios da nossa redenção, acompanhando Jesus e testemunhando a sua obra redentora. Hoje chegamos ao coração do mistério — não só da redenção humana, mas da própria criação e salvação. Por isso, ouvimos as leituras que percorreram desde a criação até a ressurreição de Cristo.1
Vivemos nesta liturgia a noite santa da ressurreição de Nosso Senhor. Ao ressuscitar, Ele eleva a própria obra da criação a uma condição nova. Na sua humanidade, não só todo o gênero humano é elevado, mas também participa dessa obra todo ser criado.2 Se nos remetemos à primeira leitura do Antigo Testamento desta liturgia,3 a condição nova da criatura na ressurreição é a plenificação da própria obra criada. A criação e, como parte desta, a própria humanidade não são fruto de um experimento do Criador. Têm em si uma finalidade, que é participada de forma mais plena pelos seres espirituais: participar da vida do próprio Deus.4 Jesus ressuscitado é o lugar de maior profundidade de toda a humanidade. D’Ele jorra toda vida. E quem d’Ele se aproxima e com Ele permanece em comunhão está ligado à fonte da vida.5
Se nos colocarmos a pergunta “o que é a vida?”, a resposta que encontramos no mistério que hoje celebramos é: “Jesus”.6 Isso ilumina a existência de cada pessoa humana. Fomos criados no amor para atingirmos a plenitude desse mesmo amor, vivendo em comunhão definitiva com Aquele que é a fonte de toda vida. Durante toda a história da salvação experimentamos a proximidade de Deus. É com seu auxílio que atingimos o nosso fim. A criação, portanto, não se restringe a um ponto no início de tudo, mas continua na história até que a criatura chegue à sua plena maturidade. Quando acontece a criação do homem, Deus empenha as suas próprias mãos junto com o seu sopro e a sua palavra.7 O Filho é a mão de Deus modelando a humanidade, desde a criação até a ressurreição.8
Queridos catecúmenos, cada um de vocês tem a sua história e as suas buscas. Talvez até mesmo os seus vazios. Por isso buscaram a Igreja, para nela tomarem parte na obra do Cristo. Sejam quais forem as situações pessoais que os trouxeram até aqui, não pensem que foi só um acaso ou uma busca vaga por preencher um vazio existencial. Até o vazio do coração humano fala de Deus e aponta para Ele. Mesmo não sabendo o que busca, e perdido em meio a confusões, o coração humano busca o divino, pois o vazio que experimenta é a ausência dos bens eternos.9 E mesmo depois de tomar consciência dessa busca e começar a progredir no caminho da graça, é comum continuar um certo vazio. Por que isso? Com a graça, esse vazio não deveria ter desaparecido completamente? Desejamos Aquele que é eterno, infinito, muito acima de toda obra criada. Logo, da nossa pequenez não abarcamos a sua imensidão por completo. Mas podemos progredir continuamente no caminho da graça, indo cada vez mais profundos no mistério do próprio Deus.10 Não se assustem se, com o conhecimento do mistério de Deus, o coração de vocês passar a desejar ainda mais o próprio Deus. Esse caminho de ausência e presença é cheio de esperança. O túmulo está vazio, mas o Senhor está vivo.
As mulheres que foram ao túmulo de Jesus logo cedo eram as mesmas que estavam aos pés da cruz.11 Vivenciaram a dor, o sofrimento, a incompreensão diante de tamanha brutalidade da cruz, e agora, com prontidão, vão ao sepulcro para visitar o Senhor morto. Ou seja, confiaram em Deus mesmo diante das adversidades e perseguições, e agora continuam a expressar o seu amor por seu Mestre. Tamanho é o susto delas ao encontrarem o túmulo vazio! Porém, não encontram somente ausência, mas também presença. A ausência do corpo é pedagogia divina para dizer a elas que o que estava morto agora vive. O anjo lhes dá esse grande consolo e comunica aos seus corações a verdadeira alegria.12 Todos nós nos preparamos para vivenciar a alegria da Páscoa. Em nossas penitências sentimos tanta ausência, mas agora podemos também nos deter diante da presença. O próprio Jesus ressuscitado se manifesta a elas.13 Ele está presente, vivo. Nesse sentido, tanto o vazio quanto a presença conduzem à felicidade. Na penitência buscamos dominar sobre a nossa própria humanidade, para assim nos afastarmos das obras do pecado; mas o verdadeiro sentido está no mistério do ressuscitado. Houve também uma aproximação do túmulo de Jesus e um encontro com Ele vivo. A fé que hoje ilumina o nosso olhar nos faz perceber e contemplar as maravilhas que Deus realiza por nós.
Estamos apenas iniciando o tempo pascal com esta liturgia. Devemos continuar progredindo no mistério do ressuscitado. De forma especial os nossos catecúmenos, que, recebendo hoje o dom da vida nova em Cristo, vão mergulhar nas riquezas de sua graça. Vocês não chegaram ao fim de uma caminhada; pelo contrário, estão no início de uma. Tenham fé e esperança. Na paciência, deem um passo após o outro, confiando n’Aquele que por vocês deu a sua vida na cruz e por vocês ressuscitou dos mortos.
A obra maravilhosa realizada na humanidade acontece no poder de Deus. É uma verdadeira obra de santificação. Encontramos, na ação do Espírito Santo na humanidade redimida e santificada, a presença da outra mão de Deus que modela o homem.14 Criação e salvação se tocam e fazem parte do agir amoroso que brota do coração do Pai.
Cristo ressuscitou de verdade,15 e por isso também é verdadeira a vida nova que recebemos. Nem nossos pecados podem vencê-la. Podemos agora trazer à nossa memória o mistério redentor que venceu o pecado em nós. Nós nos alegramos porque a vida venceu a morte.16 Jesus ressuscitou, como disse,17 e em nossas vidas habita a sua graça. Não nos deixemos perturbar pelas nossas limitações, falhas e pecados, pois a graça que está em nós é mais verdadeira do que tudo isso.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Notas
Vigília Pascal do ano A. As leituras percorrem a história da salvação, de Gênesis 1 aos profetas; a epístola é Romanos 6,3-11 e o Evangelho, Mateus 28,1-10 — que é o Evangelho da Vigília no ano A, o mesmo que a homilia comenta.
A Vigília Pascal percorre, em suas leituras, toda a história da salvação: da criação (Gênesis 1,1—2,2) ao sepulcro vazio (Mateus 28,1-10, no ano A). ↩
Romanos 8,19-22: “a criação inteira geme e sofre as dores do parto até o presente”. ↩
Gênesis 1,1—2,2, o relato dos sete dias — a primeira das leituras da Vigília. ↩
2Pedro 1,4: “para vos tornardes participantes da natureza divina”. ↩
João 15,4-5 (“permanecei em mim”) e João 4,14 (“uma fonte de água que jorra para a vida eterna”). ↩
João 14,6: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”; e João 11,25. ↩
Gênesis 2,7: “o Senhor Deus modelou o homem com o pó do solo e soprou em suas narinas um sopro de vida”. ↩
A imagem das “duas mãos do Pai” — o Filho e o Espírito Santo, pelas quais Deus modela o homem desde o barro até a ressurreição — é de Santo Irineu de Lião, Contra as heresias, IV, 20, 1. ↩
A formulação clássica desse vazio está em Santo Agostinho, Confissões I, 1: “fizeste-nos para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti”. ↩
A ideia de um progresso sem fim no conhecimento de Deus — quanto mais se conhece, mais se deseja — tem em São Gregório de Nissa (Vida de Moisés) a sua formulação clássica; é o que a tradição grega chama de epéktasis. ↩
Mateus 28,1; cf. Mateus 27,55-56.61. ↩
Mateus 28,5-7: “Não tenhais medo… Ele não está aqui, pois ressuscitou como havia dito.” ↩
Mateus 28,9-10: “E eis que Jesus veio ao encontro delas e disse: Alegrai-vos!” ↩
A outra mão é o Espírito Santo — ver a nota 8. ↩
Lucas 24,34: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente.” E a Sequência pascal Victimae paschali laudes: “Sabemos que Cristo verdadeiramente ressuscitou dos mortos.” ↩
Sequência pascal: “A morte e a vida travaram um duelo admirável; o Rei da vida, que morrera, reina vivo.” ↩
Mateus 28,6: “Ele ressuscitou, como havia dito.” ↩
Texto revisto para publicação. A revisão corrigiu concordância, regência, pontuação e repetições, sem alterar o conteúdo da pregação. As notas foram acrescentadas nesta edição e não faziam parte do texto pregado: indicam as passagens citadas ou aludidas na homilia e, quando a liturgia do dia é fixa, as leituras próprias da celebração.
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