Palavra

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Tríduo Pascal

O lugar próprio é a caridade

Missa da Ceia do Senhor · Quinta-feira Santa

2 de abril de 2026

Caros irmãos e irmãs, estamos reunidos aqui para celebrar solenemente o Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. A liturgia desta Quinta-feira Santa nos faz mergulhar o olhar no mistério daquilo que acontece após a última ceia: Jesus é preso e levado para sofrer a paixão e morrer na cruz. Assim, estes não são fatos que ficaram num momento histórico e que trazemos à nossa lembrança. O evento Cristo não ficou restrito a um momento, mas inundou toda a história, comunicando o dom da salvação e da redenção a todos nós; também testemunharemos, no Sábado Santo, este mesmo dom sendo concedido aos catecúmenos que se aproximaram de Jesus, acolheram a sua Palavra e desejam segui-lo com verdadeira caridade.

A primeira leitura traz a instituição da Páscoa judaica.1 Moisés é o mediador dessa páscoa, aquele que deve ir à frente do povo para conduzi-lo à liberdade. Mas quem prepara e realiza essa páscoa é o próprio Deus, conduzindo o povo, com sua força e poder, do Egito rumo à terra prometida. O cordeiro imolado às pressas marca a saída da terra da escravidão, e o seu sangue na porta é a marca que preserva da morte. Os que comeram a páscoa foram marcados para a vida e preservados da morte. O cordeiro é figura de Cristo, que é o verdadeiro cordeiro imolado para a libertação e salvação de toda a humanidade.2

O doente precisa de médico, o sadio não.3 Da mesma forma, o escravo, o prisioneiro precisa de libertação; quem já está livre não precisa ser libertado. A percepção de si mesmo é importante para que cada pessoa possa se situar e reconhecer a condição em que se encontra. Quem não se percebe escravo e prisioneiro não se dá conta de que necessita da libertação. O seu coração tem como horizonte o limite das grades. Para quem vive assim, o que é escravidão é tido como vida.

É Deus mesmo quem liberta o seu povo, mas a humanidade precisa preparar a páscoa. A oferta humana reflete a consciência da condição da própria humanidade que, escravizada, deseja a libertação e a vida verdadeira. Jesus age no poder de Deus e, ao mesmo tempo, faz a oferta de si mesmo pela humanidade pecadora. A sua oferta é cheia de caridade; está plenificada pelo amor de Deus. Ele faz a sua entrega livremente: ninguém lhe tira a vida, é Ele quem a dá no exercício de sua liberdade.4 O poder de Deus que conduz à liberdade é o seu amor. E este agora habita a própria carne humana na pessoa de Jesus, e d’Ele se irradia a todos aqueles que com Ele estão em comunhão. A nossa liberdade é dom de Deus, e é também um chamado a permanecermos no amor com que fomos amados e recebemos o dom da vida nova.5 Livres, somos chamados a viver na caridade, ao modelo de Nosso Senhor e Mestre, que se inclina para purificar o que é impuro.

No Evangelho, Jesus realiza durante a última ceia o lava-pés, lavando os pés dos seus discípulos para que estes tivessem parte com Ele.6 Um gesto belo e de serviço, que também pode ser escandaloso. Pedro não quer aceitar, porque não quer ver o seu Senhor e Mestre na posição de quem serve — posição essa reservada aos servos e escravos. Pedro ainda não compreende a caridade que leva Jesus a realizar tal gesto e percebe somente o Mestre se rebaixando a uma função que não era digna d’Ele. Mas o verdadeiro lugar em que Ele se coloca é a caridade. Dela está plena a sua divindade, e nela está completamente imersa a sua humanidade, com tudo aquilo que lhe é próprio. A ação santa de Jesus realiza o acabamento de sua obra santificadora em seus discípulos, que foram santificados na Palavra.7 O gesto de lavar os pés é exemplo de humildade para todos os seus discípulos. Como a humildade não tem um fim em si mesma, indo além do exemplo, a caridade — que inundou e santificou a humanidade de Jesus — é o lugar próprio onde devem viver os seus discípulos.

São Paulo, na primeira carta aos Coríntios, que acabamos de ouvir, fala da tradição que recebeu e transmitiu.8 Continuando, ele traz o próprio relato da instituição da Eucaristia, não como um fato narrado em terceira pessoa, mas em primeira pessoa e com as palavras do próprio Cristo. A obra redentora consumada na cruz continua a ser participada pelos seus discípulos. Ele mesmo a antecipou na última ceia, instituindo a Eucaristia e o sacerdócio ministerial. O sacerdócio está sempre em função da comunicação da obra misericordiosa de Cristo a toda a humanidade, em todos os tempos e lugares. Na Eucaristia nós nos sentamos à mesa com Jesus para participarmos da sua ceia e do seu sacrifício. Tempo e espaço não desaparecem, mas são elevados e plenificados pela eternidade de Deus.

Hoje, em torno deste altar, nós celebramos o mistério da Páscoa de Nosso Senhor. É uma memória que se realiza diante de nós. Não simplesmente trazemos à memória os eventos passados de nossa salvação: eles realmente estão acontecendo no nosso hoje. Nessa “memória-participação real e presente” nós nos tornamos testemunhas da obra de Jesus.9

O sacrifício do Senhor nos libertou. Por isso, para permanecer no seu mistério, somos chamados a fazer da nossa vida um sacrifício santo e agradável a Deus, por nossa comunhão com o próprio Senhor.10 Viver a caridade é fazer da própria vida um sacrifício espiritual. Assim nós estamos aqui, celebrando esta santa Eucaristia — porque a obra de Jesus nos libertou, nos moldou e nos enriqueceu com sua graça. Ser comunidade de fé, ou seja, comunidade dos discípulos de Jesus, é viver das coisas do céu mesmo durante a peregrinação terrena, apontando nossas vidas para o mistério de Deus, que é uma presença real em nós. Enquanto peregrinamos, não vivemos unicamente entre aquilo que é passageiro, pois o eterno já nos enriquece com os seus dons e nos conduz gradualmente no crescimento em sua graça, até que possamos chegar à plenitude.

O caminho do cristão é feito, como o de Jesus, com dor, sofrimento, alegria e vida. Somos chamados a peregrinar na esperança e perseverar no seguimento de Cristo. Portanto, não tenhamos medo de nos reclinar como Jesus para o serviço humilde, pois a caridade está em nós. Não nos perderemos nesse gesto: estaremos vivendo na caridade e em liberdade. Amar segundo o coração de Deus é ser verdadeiramente livre. Com nossas raízes fundadas no mistério salvador do Cristo, podemos exercer a liberdade de filhos de Deus.

Hoje é o início do Tríduo Pascal. Permaneçamos com Jesus durante esses três dias, percorrendo a paixão e a morte do Senhor para testemunharmos a sua ressurreição. Também em nossa vida permaneçamos com Ele, com fidelidade, no caminho da cruz, para ressuscitarmos no último dia para a vida eterna, e assim experimentar em nossa própria carne, em plenitude, os frutos da ressurreição de Nosso Senhor.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Notas

Leituras da Missa da Ceia do Senhor — as mesmas em todos os anos: Êxodo 12,1-8.11-14; Salmo 115(116); 1Coríntios 11,23-26; João 13,1-15.

  1. Êxodo 12,1-14: o cordeiro sem defeito, o sangue nas ombreiras da porta, a refeição comida às pressas, de cintura cingida e sandálias nos pés.

  2. Cristo como o verdadeiro cordeiro pascal: 1Coríntios 5,7 (“Cristo, nossa Páscoa, foi imolado”); João 1,29; 1Pedro 1,18-19; Apocalipse 5,6.

  3. Mateus 9,12 (cf. Marcos 2,17; Lucas 5,31): “Não são os que estão bem que precisam de médico, mas os doentes.”

  4. João 10,18 — a única passagem citada expressamente no texto pregado: “Ninguém a tira de mim, mas sou eu que a dou por mim mesmo.”

  5. João 15,9: “Permanecei no meu amor.”

  6. João 13,1-15, o Evangelho do dia. A resposta a Pedro está em 13,8: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo.”

  7. João 17,17.19: “Santifica-os na verdade: a tua palavra é verdade.”

  8. 1Coríntios 11,23-26, a segunda leitura do dia: “Eu recebi do Senhor o que vos transmiti.”

  9. A liturgia chama esse “hoje” de memorial (em grego, anámnesis): não a lembrança de um fato ausente, mas a presença do próprio mistério celebrado.

  10. Romanos 12,1: “oferecei os vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”.

Texto revisto para publicação. A revisão corrigiu concordância, regência, pontuação e repetições, sem alterar o conteúdo da pregação. As notas foram acrescentadas nesta edição e não faziam parte do texto pregado: indicam as passagens citadas ou aludidas na homilia e, quando a liturgia do dia é fixa, as leituras próprias da celebração.

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